Bagaço de cerveja no cultivo de Pleurotus: resíduo ou suplemento produtivo?
O fabrico de cerveja gera grandes quantidades de bagaço, constituído sobretudo pelas cascas e frações insolúveis dos cereais utilizados durante a produção do mosto. Apesar de ser frequentemente encaminhado para alimentação animal ou compostagem, este coproduto conserva fibra, proteínas e outros nutrientes potencialmente aproveitáveis no cultivo de cogumelos.
Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports avaliou diferentes resíduos agroalimentares como componentes de substratos para Pleurotus ostreatus. Entre as formulações testadas, a combinação de palha de trigo com bagaço de cerveja apresentou o melhor equilíbrio entre velocidade de colonização e produtividade.
Os resultados são promissores, mas devem ser interpretados com prudência antes de serem transferidos para uma produção comercial.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores testaram 50 formulações diferentes, preparadas com matérias-primas como:
- palha de trigo;
- serradura de faia;
- farelo de trigo;
- bagaço de cerveja;
- polpa de beterraba;
- bagaço de colza.
Cada formulação foi preparada em triplicado, resultando em 150 unidades experimentais durante a fase inicial de seleção.
Os materiais foram hidratados durante 24 horas e drenados até atingirem aproximadamente 60% a 70% de humidade. Depois, foram esterilizados a 121 °C durante 30 minutos e inoculados com micélio em grão de aveia, numa proporção de 12 ± 2% relativamente ao peso húmido do substrato.
A primeira fase foi realizada em tubos, permitindo comparar a velocidade de crescimento do micélio. As formulações mais promissoras avançaram posteriormente para ensaios de frutificação em sacos.
Qual foi a melhor formulação?
A formulação com melhor desempenho foi constituída por:
70% de palha de trigo e 30% de bagaço de cerveja.
Estas proporções foram calculadas relativamente à composição dos materiais do substrato. Numa aplicação produtiva, a formulação deve ser corrigida com base na matéria seca, porque o bagaço fresco contém normalmente uma quantidade muito elevada e variável de água.
Segundo o estudo, esta mistura apresentou:
- colonização completa em aproximadamente 16 dias;
- formação de primórdios aos 20 dias;
- primeira colheita aos 28 dias;
- produção máxima de 51,7 gramas por saco;
- eficiência biológica de 54,33 ± 1,53%.
No substrato de controlo, constituído apenas por palha de trigo, os primórdios surgiram aos 32,0 ± 1,4 dias e a primeira colheita ocorreu aos 35,5 ± 3,5 dias.
A eficiência biológica do controlo foi de 41,90 ± 1,25%. A incorporação de bagaço correspondeu, portanto, a uma melhoria relativa próxima de 30% neste indicador.
A formulação com 70% de palha e 30% de farelo de trigo também apresentou bons resultados, mas a sua eficiência biológica foi inferior, situando-se em 45,30 ± 1,41%.
Os dados sugerem que o bagaço não funcionou apenas como material estrutural. A sua composição nutricional poderá ter disponibilizado azoto, hidratos de carbono e minerais adicionais ao micélio de Pleurotus ostreatus.
Porque poderá o bagaço favorecer o crescimento?
O bagaço de cerveja é um material lignocelulósico, mas apresenta geralmente uma concentração de proteínas superior à da palha. Esta combinação torna-o interessante como suplemento.
A palha assegura estrutura, porosidade e uma importante fonte de carbono. O bagaço pode aumentar a disponibilidade de azoto e de outros nutrientes necessários ao crescimento do micélio e à formação dos corpos frutíferos.
Contudo, o mesmo enriquecimento que favorece Pleurotus também pode beneficiar bactérias, leveduras e fungos contaminantes. Um substrato nutricionalmente mais rico não é automaticamente um substrato mais seguro.
O estudo demonstrou uma associação entre a formulação e o desempenho produtivo, mas não identificou isoladamente quais os componentes do bagaço responsáveis pela melhoria.
Um resultado interessante, mas ainda não comercialmente validado
A produção máxima de 51,7 gramas por saco deve ser interpretada no contexto da dimensão reduzida das unidades experimentais. Não corresponde à produtividade expectável num bloco comercial de 2,5 ou 3 quilogramas.
O estudo também apresenta outras limitações:
- utilizou apenas uma estirpe de Pleurotus ostreatus;
- cada formulação teve apenas três repetições;
- os substratos foram preparados em condições laboratoriais;
- a esterilização de 30 minutos não pode ser transposta diretamente para blocos comerciais maiores;
- não foi demonstrada a estabilidade dos resultados entre diferentes lotes de bagaço;
- não foi realizada uma análise económica completa;
- não foram avaliadas várias campanhas produtivas independentes.
A eficiência biológica também deve ser confirmada através de uma metodologia rigorosamente baseada na massa seca inicial. A humidade elevada do bagaço pode originar erros importantes se as formulações forem preparadas apenas com base no peso húmido.
Por estas razões, a formulação 70/30 deve ser considerada um ponto de partida experimental e não uma recomendação imediata para produção em escala.
Principais riscos produtivos
1. Deterioração rápida
O bagaço sai da cervejeira quente, húmido e rico em nutrientes. Sem refrigeração, secagem ou utilização rápida, pode iniciar processos de fermentação e deterioração em poucas horas.
2. Variabilidade entre lotes
A composição pode variar em função dos cereais, da receita da cerveja, da eficiência da extração, da quantidade de água retida e do processo utilizado pela cervejeira.
3. Aumento das contaminações
O enriquecimento nutricional pode favorecer bolores, bactérias e leveduras. Quanto maior for a proporção de bagaço, maior deverá ser a atenção ao tratamento térmico, à higiene da inoculação e à qualidade do micélio.
4. Compactação do substrato
O bagaço húmido pode reduzir a porosidade da mistura. Uma preparação excessivamente compacta dificulta as trocas gasosas e pode criar zonas anaeróbias.
5. Custo da estabilização
O bagaço pode ser adquirido a baixo custo, mas a recolha, o transporte, a refrigeração e a secagem consomem energia e trabalho. A vantagem ambiental e financeira deve ser calculada para toda a operação.
Uma oportunidade de economia circular
Quando existe uma cervejeira próxima da unidade de produção, o bagaço pode integrar um modelo local de valorização de resíduos.
A cervejeira reduz o volume de material a encaminhar para outros destinos e o produtor de cogumelos obtém uma matéria-prima com interesse nutricional. Depois da produção, o substrato exaurido ainda poderá ser estudado para compostagem ou aplicação agronómica adequada.
Esta circularidade só é real quando os benefícios superam os custos de recolha, transporte, conservação e processamento. Secar grandes quantidades de bagaço com elevado consumo energético poderá eliminar uma parte substancial da vantagem ambiental.
Conclusão
A mistura de 70% de palha de trigo com 30% de bagaço de cerveja apresentou resultados interessantes no cultivo experimental de Pleurotus ostreatus. A formulação acelerou a colonização, antecipou a primeira colheita e aumentou a eficiência biológica relativamente à palha utilizada isoladamente.
O trabalho demonstra que o bagaço merece ser estudado como suplemento. Não demonstra, contudo, que a incorporação de 30% seja imediatamente segura ou economicamente vantajosa numa produção comercial.
O passo correto é testar primeiro em pequena escala, trabalhar em matéria seca e controlar rigorosamente a humidade, a temperatura e as contaminações.
Se os resultados forem repetíveis, o bagaço de cerveja poderá deixar de ser apenas um coproduto difícil de conservar e tornar-se numa matéria-prima local para a produção sustentável de cogumelos.
Referência científica: Miśkiewicz, K., Gendaszewska, D., Sieczyńska, K. & Gutarowska, B. (2025). “Agri-food wastes as substrates for oyster mushroom (Pleurotus ostreatus) cultivation and their agricultural potential”. Scientific Reports, 15, 42617. Consultar o artigo científico.